Guia Técnico Rural

Dados da CONAB: o Raio-X do Agro Brasileiro (e Como Ler por Município)

Armazenagem, safras, PGPM, custo de produção e hortifrúti: cada base de dados da Conab e como cruzá-las por município pra decidir estocar, vender e produzir.

Publicado em 28 de junho de 2026
Atualizado em 28 de junho de 2026
12 min de leitura
Índice do Artigo

A CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento), vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), é a maior produtora de dados públicos do agronegócio brasileiro. Ela acompanha cada safra desde 1976, mapeia a rede de armazéns do país, calcula o custo de produção das principais culturas, define o preço mínimo garantido e registra, todo dia, o preço do hortifrúti nas centrais de abastecimento. O problema é que tudo isso vive espalhado em planilhas, PDFs e painéis nacionais — difíceis de cruzar e quase nunca disponíveis para a sua cidade.

Este guia explica, base por base, o que a CONAB publica, o que cada número significa na prática e como o Calculadora Rural transforma esses dados nacionais em informação por município — para você decidir onde estocar a safra, quando vender, quanto custa produzir e onde o hortifrúti está mais barato.

O que a CONAB faz (e por que isso vira dado)

A CONAB executa quatro missões que geram dados abertos:

  1. Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM): define o piso de preço de dezenas de produtos por região, para proteger o produtor quando o mercado desaba.
  2. Gestão de estoques públicos e abastecimento: opera armazéns, leilões e o programa de aquisição de alimentos — e mantém o cadastro nacional de unidades armazenadoras.
  3. Levantamento de safra: estima área, produção e produtividade de grãos a cada mês, formando a série histórica mais longa do país.
  4. Custos e preços: calcula o custo de produção por hectare em municípios-referência e levanta os preços recebidos pelo produtor e os preços de atacado nas CEASAs (ProHort).

Cada uma dessas missões deixa um rastro de dados. São seis bases que importam para quem produz — e o diferencial do nosso site é juntá-las numa única página por município.

1. Levantamento de safra de grãos (50 anos de série)

A base de safra é o coração da CONAB: área plantada, produção e produtividade de mais de uma dezena de grãos (soja, milho 1ª e 2ª safra, arroz, feijão, trigo, algodão, sorgo e outros), safra a safra, desde 1976/77. É com ela que se enxerga a transformação do agro brasileiro — Mato Grosso, por exemplo, saiu de poucos milhões para mais de cem milhões de toneladas de grãos em meio século.

No Calculadora Rural, essa série vira um gráfico de evolução da produção de grãos no perfil agropecuário de cada estado, e o contexto de produtividade alimenta o cálculo de margem por hectare. Produtividade não é detalhe: é ela que separa uma lavoura lucrativa de uma no vermelho com o mesmo preço de venda.

2. Rede de armazenagem (e o déficit do seu município)

A CONAB mantém o cadastro nacional de armazéns: quase duas mil unidades, com capacidade estática, tipo (graneleiro, convencional) e localização. Sozinho, esse dado é um inventário. Cruzado com a produção de grãos do município (IBGE), ele responde a uma pergunta cara: a minha região tem onde guardar a safra?

Quando a capacidade local é menor que a produção, há déficit de armazenagem — e déficit significa pressão de venda na colheita, quando o preço está no fundo. Quem tem (ou aluga) armazém consegue esperar a entressafra e vender melhor. O Brasil convive com déficit estrutural: boa parte dos municípios produz mais do que consegue estocar.

A seção de armazenagem em cada página municipal de /agro classifica a sua cidade entre déficit, equilíbrio, superávit ou polo armazenador — uma visão que a planilha nacional não entrega.

Da base CONAB à decisão na fazenda

Base CONABDecisão que ela responde
Safra de grãosMinha produtividade está acima ou abaixo da região?
ArmazénsTenho onde guardar para vender na entressafra?
Preço mínimo (PGPM)Qual o piso que me protege de uma queda de preço?
Custo de produçãoQuantas sacas/ha preciso colher para empatar?
Preço ao produtorQuanto vale minha saca hoje, no meu estado?
ProHort / CEASAEm qual central meu hortifrúti está mais caro?

3. Preço mínimo garantido (PGPM)

O PGPM é a rede de proteção do produtor. A CONAB publica, por portaria, o preço mínimo de cada produto por região — o valor abaixo do qual o governo pode intervir (com aquisição ou subvenção). Conhecer o preço mínimo da sua cultura e região é saber qual é o “chão” da negociação: se o mercado paga perto do mínimo, vale acionar os instrumentos de comercialização da própria CONAB em vez de vender no prejuízo.

Esse piso aparece como nota na calculadora de custo e margem, ao lado do preço de mercado e do custo — para você comparar os três de uma vez.

4. Custo de produção (o ponto de equilíbrio em sacas)

A CONAB calcula o custo de produção por hectare em municípios-referência: separa custo variável (sementes, fertilizantes, defensivos, operações) de custo fixo (depreciação, terra, capital), por cultura e por safra. É a base mais subestimada — e a mais importante para a margem.

Com o custo por hectare e o preço da saca, sai o número que todo produtor deveria saber de cor: o ponto de equilíbrio em sacas por hectare (custo ÷ preço). Abaixo dele, prejuízo; acima, lucro. Faça a conta da sua lavoura:

Quando você compara culturas para a próxima safra, é o custo da CONAB cruzado com a produtividade da sua região que diz qual paga melhor — não o preço sozinho. É o que faz a comparação de margem entre culturas.

5. Preço ao produtor (mensal, por estado)

Além do mínimo, a CONAB levanta o preço efetivamente recebido pelo produtor, mês a mês, por estado e por município. É o preço “de balcão” — diferente da cotação da bolsa, que reflete contratos futuros. Usamos o preço mensal mais recente para pré-preencher as calculadoras de margem, de modo que você comece com um número realista do seu estado e ajuste com o preço do seu contrato.

6. ProHort: abastecimento e preço diário da CEASA

O ProHort é o programa da CONAB que acompanha as Centrais de Abastecimento (CEASAs). Ele gera duas bases poderosas:

  • ProHort mensal — origem do hortifrúti: rastreia de qual município veio cada produto que abastece cada CEASA. É rastreabilidade rara: dá para ver que cidade é o polo de abastecimento de batata, tomate ou banana de uma região inteira. Esse dado alimenta a seção de comercialização/abastecimento em /agro.
  • ProHort diário — preço de atacado: o preço diário de dezenas de produtos hortifrúti em mais de quarenta CEASAs do país, com anos de histórico. É a cotação fresca que move a feira e o supermercado.

É essa base diária que vira o nosso painel de preços CEASA: cotação por central, gráfico histórico de 24 meses, sazonalidade e a comparação “onde está mais barato” — usando só cotações recentes, para não misturar datas. Os preços são atualizados mensalmente a partir do dump oficial.

Como a CONAB publica

  • Planilhas e PDFs nacionais
  • Recorte por país ou por estado
  • Cada base num lugar separado
  • Sem cruzamento com IBGE

Como o Calculadora Rural entrega

  • Uma página por município (5.571)
  • Seis bases cruzadas num só lugar
  • Déficit, margem e preço da sua cidade
  • CONAB + IBGE + MAPA juntos

O diferencial: dados nacionais virando informação local

A CONAB é generosa com dados, mas avara com granularidade: quase tudo sai por país ou por estado. O produtor de Sorriso, de Rio Verde ou de Unaí precisa da informação da sua cidade — e é aí que entra a nossa agregação.

No perfil agropecuário por município, reunimos numa só página: o calendário de plantio (ZARC/MAPA), as cultivares recomendadas, o valor da terra (VTN), a produção rural e a estrutura fundiária (IBGE), a margem por hectare (custo CONAB × preço CONAB × produtividade IBGE), o déficit de armazenagem (armazéns CONAB × produção IBGE), os sinistros agrícolas (risco climático) e o abastecimento (ProHort). São camadas que, somadas, dão um raio-X que nenhuma fonte oficial entrega isolada — e tudo com a metodologia aberta na página de fontes.

É a diferença entre saber que “o Brasil tem déficit de armazenagem” e saber que “a minha cidade armazena só 60% do que produz, então vou perder poder de barganha na colheita”.

Como usar os dados da CONAB na sua safra

  1. Antes de plantar: compare o custo de produção e a margem esperada entre culturas para a sua região com a comparação de culturas, e respeite a janela do ZARC — plantar fora dela aumenta o risco de sinistro e perde cobertura de seguro.
  2. Na hora de orçar: dimensione fertilizantes e calcário com base no custo, e calcule o ponto de equilíbrio em sacas/ha — saber quantas sacas pagam a conta é o melhor termômetro de risco.
  3. Na colheita: se a sua região tem déficit de armazenagem e o preço está perto do mínimo (PGPM), avalie esperar — quem estoca vende na entressafra com prêmio.
  4. No hortifrúti: acompanhe o preço de atacado da CEASA por central e a sazonalidade antes de definir quando e para onde mandar a produção.

Estoques públicos, leilões e PAA

Além de medir e publicar, a CONAB atua no mercado — e essa atuação também é informação. A companhia mantém estoques públicos de produtos estratégicos (arroz, milho, feijão), que podem ser liberados para conter a alta ao consumidor ou recompostos para sustentar o produtor na baixa. O movimento desses estoques sinaliza a leitura oficial sobre oferta e demanda.

Os leilões são o instrumento operacional do PGPM: por meio deles o governo oferece prêmios (como o PEP e o PEPRO) para escoar a produção de regiões distantes do consumo, ou adquire quando o preço fura o piso. Para o produtor de uma região com déficit logístico, acompanhar os leilões pode abrir um canal de venda a preço garantido justamente quando o mercado local está deprimido.

Há ainda o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), que compra da agricultura familiar para abastecer a rede de assistência — outra demanda institucional que aparece, no nível municipal, na seção de abastecimento das páginas de /agro. Somados, estoques, leilões e PAA mostram que a CONAB não é só um termômetro do agro: é também um amortecedor — e quem produz ganha em conhecer esses instrumentos antes de precisar deles.

Perguntas frequentes sobre os dados da CONAB

O que é a CONAB e o que ela faz? A Companhia Nacional de Abastecimento é uma empresa pública ligada ao MAPA. Ela executa a política de preços mínimos, gere estoques públicos, levanta as safras, calcula custos de produção e acompanha o abastecimento de hortifrúti nas CEASAs (ProHort). Tudo gera dados abertos.

Os dados da CONAB são gratuitos? Sim. A CONAB publica levantamentos de safra, custos, preços e cadastros como dados públicos. O Calculadora Rural apenas organiza, cruza com IBGE/MAPA e apresenta por município — sem custo para o usuário.

Qual a diferença entre preço mínimo (PGPM) e preço ao produtor? O preço mínimo é o piso garantido por política pública, definido por portaria. O preço ao produtor é o que o mercado efetivamente paga num dado mês. Quando o segundo encosta no primeiro, é sinal de mercado deprimido — e de que vale acionar os instrumentos de comercialização.

Com que frequência os dados são atualizados? Varia por base: a safra de grãos é mensal; custos e preço ao produtor, mensais; o cadastro de armazéns e o ProHort mensal, com periodicidade própria; e o preço de atacado da CEASA (ProHort diário) atualizamos mensalmente a partir do dump oficial, para a seção de preços.

O que é déficit de armazenagem? É quando a capacidade de armazéns de um município é menor que a sua produção de grãos. Significa que parte da safra precisa ser escoada ou estocada fora — geralmente forçando venda na colheita, quando o preço é mais baixo.


Os dados da CONAB são um patrimônio público subaproveitado. Lidos isoladamente, são planilhas; cruzados por município, viram decisão. Comece pelo perfil agropecuário da sua cidade, confira o preço da CEASA e rode a margem da sua lavoura.

Leituras relacionadas: Preço da CEASA: como funciona o atacado de hortifrúti · Custo de produção e margem por hectare · ZARC: o guia completo do zoneamento agrícola · Peso do agro no município (VAB)